DIFUSORES #7 (Dico - Loures)

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DIFUSORES #7 (Dico - Loures)

Mensagem por Admin em 20/11/2013, 16:46

Durante os próximos tempos, a Irmandade Metálica irá receber os testemunhos de vários intervenientes na cena metálica nacional, de norte a sul do país (ilhas incluídas), e saber o que pensam do meio metálico português, passado, presente e futuro.  Um projecto que pretende mostrar o que há localmente (bandas e espaços), o que se pode melhorar, ideias, sugestões, etc.




Índice

DIFUSORES #1 | Nuno Costa (Sound/Zone) AÇORES
DIFUSORES #2 | Guilhermino Martins (Serrabulho/ThanatoSchizO) TRÁS-OS-MONTES
DIFUSORES #3 | Sérgio Mendes (Fogo No Gelo) RIBATEJO
DIFUSORES #4 | Álvaro Fernandes (Pitch Black/Dementia 13) PORTO
DIFUSORES #5 | Fernando Reis (Misantropia Extrema Webzine) Grande LISBOA
DIFUSORES #6 | Vitor Paixão (Org. Santa Maria Summer Fest) BEJA
DIFUSORES #7 | Dico (Livro "Breve História do Metal Português") LOURES


Última edição por Admin em 31/5/2014, 19:29, editado 10 vez(es)
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DIFUSORES #1 (Nuno Costa - Açores)

Mensagem por Admin em 1/12/2013, 14:25



BI

Nome: Nuno José Moniz Costa
Data de nascimento: 26.04.1983
Reside em: Furnas, São Miguel, Açores
Profissão: Jornalista, músico, promotor de eventos
No aço desde: 1994
Bandas e/ou projectos, editoras, distribuidoras e/ou outros presentes: bandas - Stampkase, Sanctus Nosferatu, Human Hate; projectos jornalísticos - SounD(/)ZonE, Loud!.


IM: Antes de mais, obrigado por aceitares responder a esta entrevista. Começo com uma pergunta de algibeira: Como entraste para o mundo do metal?
NC: Basicamente como todos, creio eu. Amigos próximos (e normalmente mais velhos) possuem destes gloriosos artefactos (leia-se discos) e afavelmente os partilham. Para isso, é óbvio que tem que haver o tal clique ao ouvirmos os encantos de uma batida trovejante, de uma guitarra bem distorcida ou de uma voz plenamente vigorosa! Daí a ter um papel activo no movimento foram alguns anos, mas assim que abracei bandas e projectos como a SounD(/)ZonE não mais foi possível estancar o vício. Modéstia à parte, acho que passei o teste do "algodão" e apercebi-me mesmo que este é um estilo de vida e não uma fase efémera da nossa adolescência. Por isso, estou feliz se me puderem considerar membro da "família"!

IM: Como descreves a tua situação local ou zona onde te inseres no que diz respeito a bandas e projectos de peso?
NC: Açores... bom, estamos a falar de um "microcosmos". Todavia, ao longo dos anos essa foi uma região reconhecida por gerar muitos e bons projectos do género e, de facto, na década de 90 e princípios de 2000, proliferaram actividades alusivas a este movimento (ou pelo menos em quantidade muito aceitável para a realidade local). Nos últimos dois anos o número de bandas e eventos caiu a pique e o problema é relativamente fácil de diagnosticar: sendo o metal um movimento alternativo, enquadrar isso numa população de 240.000 habitantes numa circunstância de crise e, diga-se, de tradições muito conservadoras (como em Portugal inteiro, aliás), os efeitos dissuasores são nefastos. E isso é absolutamente lamentável, porque os Açores sempre tiveram músicos com enorme talento e pessoas absolutamente devotas ao metal. Agora toda a gente toca covers, porque significa dinheiro mais fácil, e com isso afunilou-se, para não dizer vetou-se, completamente as mentes e horizontes das pessoas a outras realidades (musicais, neste caso). Não está aqui em causa a qualidade - nos Açores também há bom e mau metal -, mas a verdade é que pela tendência actual cada vez haverá menos apoio ao que não é mainstream. E as entidades que gerem a cultura nos Açores também estão-se totalmente borrifando para o caso de nos tornarmos uma monocultura de qualidade muito duvidosa. Basta atender ao facto de que antes haviam sempre alguns fundos para este género musical e nem a crise justifica a sua inexistência, pois continua a haver festivais a a custarem 250 mil euros com altos patrocínios do Governo. Mas é claro que a crise torna-se um bode expiatório perfeito para, finalmente, se dizimar alguns estratos sociais.

IM: Quais as principais dificuldades que essas bandas/projectos mais encontram e que ideias sugeres para que ultrapassem essas mesmas dificuldades?
NC: As principais dificuldades começam logo em encontrar espaço para actuarem. Basta dizer que em São Miguel (a maior ilha dos Açores, como sabem), existe um espaço (ou talvez espaço e "meio") receptivo a bandas de metal. Será preciso dizer mais do que isso? Quanto a forma de sair desse "buraco", por experiência própria na área da promoção e organização de espectáculos, posso dizer que é preciso muito mais do que criar muitos eventos de metal ou muitas condições para tocar. O problema é claramente cultural. No nosso país, talvez mais do que em muitos, a música e a cultura em geral são vistos como algo que não enche barriga nem espírito. Ora, se assim o é, nunca vamos ter capacidade de valorizar a música (aquela que realmente tem algo para transmitir) e muito menos a arte em geral. A mudança deve partir de reformas no sistema de ensino até aos meios de comunição. É um processo demasiado complexo e utópico, mas só assim mudaremos. Já em 2009 o presidente da UNESCO afirmava que nos países nórdicos é um escândalo quando se encontra uma pessoa analfabeta. Em Portugal somos ainda mais de meio milhão e na década de 70 a população que não sabia ler nem escrever situava-se nos 25%. Não se quer com isso dizer que é preciso grande instrução para ouvir música ou interpretar um quadro, mas o facto é que grande parte dos países mais desenvolvidos tem maior apetecência para a cultura e, sobretudo, maior consciência para aceitar outras formas de pensar e de estar que não a nossa enquanto indivíduos. Não me querendo dispersar demasiado, dizer, para finalizar, que os metaleiros que ainda restam nos Açores terão que lutar como nunca antes para se fazerem ouvir e terão que acreditar nos seus ideais. Basta de lamentos. É preciso usar a inteligência e colocar mãos à obra para fazer os outros verem que também temos um papel importante na sociedade.

IM: Que orgãos de divulgação, associações, espaços para tocar ou outros existem na tua zona "metálica" e, na tua opinião, qual o seu impacto/contributo para o meio?
NC: Os orgãos de divulgação açorianos resumem-se actualmente à SounD(/)ZonE e ao Metalicidio, embora a primeira seja mais abrangente e a segunda especializada em metal regional (é no fundo uma base de dados como o Metal Archives). Na Terceira surgiu recentemente um site - Grito Insular - dedicado exclusivamente ao movimento na ilha. Embora esteja a dar os primeiros passos tem feito agitar um pouco as águas e isso é de louvar. Associações? "Nicles"! E espaços para actuar existem na quantidade miserável que referi (embora na Terceira, no fundo a única ilha a par de São Miguel onde o metal "mexe", penso que existam dois). Posto isso, o impacto desses é relativo, uma vez que não se tem verificado um efeito prático nos últimos tempos. Mas de uma coisa temos todos a certeza - quando estas poucas entidades e iniciativas definharam, aí sim, temos o sepultamento de um movimento com mais de vinte anos.

IM: Que diferenças poderias estabelecer entre outros tempos (80's e 90's) e os dias de hoje no que diz respeito à qualidade das bandas, oportunidades para tocar, divulgação do seu som, etc?
NC: Muito pertinente também a questão. Houve fases distintas. Comecemos pelos anos 80. As primeiras bandas com mais "distorção" nos Açores praticamente só surgiram no final dessa década com os Wrek Age ou Stormwind, logo o movimento não tinha estrutura digna desse nome. A partir de 90, aí sim começou o verdadeiro despontar do género, nomeadamente com o aparecimento dos Morbid Death e Classic Rage. Nessa altura haviam menos bares, mas um espírito mais aberto para organizar e assistir a concertos com artistas da "pesada". Não creio que houvessem mais festivais do que na primeira metade da década 00, mas alguns registos fotográficos e mesmo audiovisuais reportam uma altura em que as pessoas verdadeiramente vibravam com os concertos (lembram-se do mítico concerto dos Ramp na Praia das Mílicias em que as grades voaram?). Outros tempos, outros costumes... A partir de 2000 começámos a ter festivais de maior envergadura, os primeiros com bandas de metal internacionais, mas não se registou a afluência desejável (ainda que em alguns casos as "casas" ficassem bem compostas). Mas ficou-se com a ideia de que estávamos perante um cruzar de ciclo. E nos últimos dois anos simplesmente evaporaram-se muitas bandas e pessoas ligadas ao movimento. Vejo um denso nevoeiro no horizonte... não sei como será. Mas a qualidade das bandas persiste, sem dúvida.

IM: Em termos de divulgação do metal por cá, aos dias de hoje, o que pensas da actual situação, desde os meios televisivos à internet passando por publicações em papel, fóruns, etc? O metal é bem divulgado em Portugal? Se não, o que precisamos de melhorar?
NC: Acho que não é bem divulgado nem em Portugal nem em lado nenhum. Entenda-se "lado nenhum" pela visão de alguém que realmente gostava de ver o metal ainda mais no alto. Acho que não disparato ao afirmar que na altura em que a MTV e outros canais televisivos dedicavam espaço ao rock e metal, estes géneros atingiram uma popularidade que provavelmente perderam em definitivo de há uma década para cá. Portanto, diria que precisaríamos de um orgão de comunicação verdadeiramente poderoso que desse o mínimo de visibilidade a essa cultura alternativa. Embora alguns abominem a palavra, principalmente no metal, a verdade é que é preciso criar-se uma "moda" em torno disto. Ou melhor, lidar com o metal da mesma maneira que outras formas de arte noutros meios de comunicação. Embora a internet tenha conferido às pessoas o poder de escolher livre e facilmente o que querem consumir, a verdade é que muita gente não tem a habilidade para discernir o "trigo" do "joio". E são os meios de comunicação, para o bem ou para o mal, que sempre tiveram esse poder. Logo, tendo meios de comunicação monopolizados, as culturas mais alternativas não terão hipótese de sair da sombra. Não obstante, é absolutamente louvável todo o trabalho desenvolvido pelas zines , revistas, fóruns e rádios que coabitam no underground luso. Só quem está dentro da "cena" é que sente as dificuldades de sobreviver num mercado tão reduzido. Ainda assim, há muito mais que pode ser feito pelos nossos orgãos de comunicação especializados. Aqui e ali falta um pouco de imaginação, mas compreende-se algumas lacunas atentendo às situações precárias em que o pessoal desenvolve essa actividade. Da vontade aos actos falta às vezes recursos humanos e financeiros e alguma capacidade de resistência para se atingir a maturidade.

IM: Na tua perspectiva, que conselho darias a novas bandas ou mesmo a bandas que já cá estão no aspecto de como devem encarar o meio musical, fazer a sua divulgação, aspirações, público, comportamento perante os media, etc? No fundo, quais as linhas mestras com que se devem orientar?
NC: Pois... essa questão faz-me pensar em coisas demasiado complexas e difíceis de resumir. Ultimamente tem-me causado espécie a forma desleixada (é mesmo o termo) como algumas bandas lidam com o seu produto. As redes sociais vieram aumentar o alcance da promoção, mas não a qualidade da mesma. Hoje em dia envia-se uma mensagem para um meio de comunicação e diz-se em duas linhas "temos uma banda e gostaríamos de aparecer na sua revista". Vamos aos seus sites e muitas vezes nem uma biografia existe disponível. Resumindo, acho que as bandas estão completamente equivocadas sobre como "vender" um produto. Para se estar nisto é preciso vestir-se o papel de business man. É preciso meterem isso na cabeça, não basta tocar. E quando falas em comportamento perante os media, eu diria que também é preciso mudar a consciência perante as editoras e demais agentes ligados à promoção musical. É verdade que existem também muitos "podres" nessa área e durante anos se exploraram artistas, mas a verdade é que se crucifica de tal forma essas classes que me faz perguntar afinal o que têm atingido as bandas que nunca trabalharam como uma boa editora ou manager? Daí o espanto quando vemos bandas de qualidade duvidosa com excelentes resultados mediáticos e mesmo financeiros e bandas de enorme qualidade remetidas ao anonimato. A qualidade musical é meio caminho andando para o sucesso, mas normalmente não é o suficiente. Portanto, há muito a melhorar nesse plano. Quanto ao público, sinceramente para revertermos a situação temos que fomentar outros hábitos em relação à cultura em geral, um pouco como já referi atrás. Digamos que existem graves problemas de base e o nosso povo é fundamentalmente muito conservador. Até mesmo os meios de comunicação "metálicos" que tentam outras abordagens são imediatamente criticados. E sei bem do que estou a falar.

IM: Podes contar uma história (sem divulgar nomes) do melhor que passaste relacionado com o meio metálico e uma outra (também sem divulgar nomes) onde se mostrou o pior e o que não deve acontecer?
NC: Boa pergunta... Normalmente guardo com especial carinho tudo o que passei no metal, mesmo os momentos mais desagradáveis e um ou outro "inimigo" que sempre acabamos por criar. Amo até isso, até porque sei que são coisas passageiras e menores. De qualquer forma, uma vez que também integro bandas, posso dizer que todas as vezes que subi a um palco ou estive em estúdio foram momentos extremamente marcantes. Ainda assim, não posso deixar de destacar a minha "aventura" a Braga, sozinho e sem conhecer o que me esperava, para gravar nos Ultrasound Studios. Enquanto organizador de eventos tive o prazer de travar conhecimento com músicos e agentes do meio por quem sempre tive uma admiração enorme - Sérgio "Animal", António Freitas, Fernando Reis, as crews dos Mnemic, Dagoba, Fear My Thoughts, Switchtense, The Temple, Angelus Apatrida, Concealment... Enfim, tantas e boas memórias se guardam desses momentos. E já referi que me senti "o senhor do universo" quando escrevi o prefácio para o livro "Breve História do Metal Português"? Pois, é por senhores (com "s" bem grande) como o Dico que me apaixonei pelo metal e me mantenho nesta actividade do jornalismo musical. Só tenho receio de esquecer alguém nestas menções honrosas... esses que me perdoem. O pior do meu envolvimento nesta área é demasiado fútil para ser referido, mas confesso que ficava com o coração aos pulos com os contratempos verificados em alguns festivais de acrescida responsabilidade que organizei e que me valeram alguns raspanetes. Estive também envolvido numa embrulhada com um festival onde vi a verdadeira podridão da política. Ainda assim, acabou por correr tudo bem... mas foi preciso um ano para corrigir as asneiras que outros fizeram.    

IM: Que acontecimento destacarias (mais antigo ou recente) que mudou algo no meio metálico e que mais como esse deveriam acontecer para fortalecer ainda mais o nosso meio?
NC: Soará demasiado cliché, mas não consigo ignorar a importância que teve a internacionalização dos Moonspell, dos Heavenwood, entre outros. Tudo mais que foi inédito - nomeadamente o surgimento das primeiras fanzines, revistas e programas rádio - teve que ser necessariamente marcante. Hoje em dia é preciso que se mantenha esse espírito de crença e conquista. Há imensas bandas nacionais actualmente que trabalham tão afincadamente como as primeiras que surgiram em Portugal, mas deparam-se com uma época em que a massificação da música levou também a uma concorrência asfixiante. Antes tínhamos que enviar cartas pelo correio e trocar cassetes; hoje basta um mail e uns likes no Facebook e já estamos a chegar a muita gente. Existem vantagens e desvantagens em ambas as épocas, mas a verdade é que o sentimento tem que partir de dentro. Tem que se perceber o porquê da música, e do metal em particular, ser importante para nós, para que isso tudo valha realmente a pena. Hoje em dia assistimos a uma assustadora perda de valores e essa é a primeira coisa a tentar inverter.

IM: O que achas que poderia ser feito que ainda não foi de forma a fortalecer o crescimento e expansão da cena metálica nacional?
NC: Vou soar muito vago novamente, mas a verdade é que o problema é cultural. O português tem pouca auto-estima e muito facilmente perde a vontade de lutar pelos seus sonhos. Logo, o efeito que possa ter o crescimento do número de festivais, revistas, bandas, etc., não significa forçosamente que estejamos a progredir. Creio que já se fez e faz-se muito pelo nosso metal, mas nem mesmo assim as coisas operam uma mudança significativa. É preciso paixão, dedicação, sacríficio e muita "casmurrice" para não nos deixarmos abater por terceiros. Há, de facto, melhorias ao nosso alcance, mas terá que ser um esforço conjunto e massificado de bandas, promotores e orgãos de comunicação. Temos que mostrar que somos profissionais como outros quaisquer e convencer as pessoas disso. Do músico mais famoso ao mais comum dos headbangers, é preciso acreditar que se consegue mudar o mundo à nossa volta, à nossa modesta maneira. Se acreditarem nisso os resultados acabarão por surgir. Não nos podemos é menosprezar antes sequer das coisas acontecerem. O português tem o terrível hábito de passar a vida a lamentar-se ao invés de tomar providências. Nós somos tão bons como os outros. É essa parte da nossa cultura que inibe todo o nosso crescimento enquanto povo. Temos que levar isso como uma religião, mas sem fanatismos. Cabemos todos e é isso que os outros têm que perceber. Apetece-me dizer que o primeiro passo seria inserir nos programas escolares uma parte que fale da história do metal ou mesmo que se ensine este género de música... mas como se consegue dizer isso sem soar ridículo?

IM: Obrigado pelo teu testemunho e paciência e agradeço que deixes uma última mensagem para o pessoal que vai ler as tuas palavras!
NC: Ui, conseguiram chegar aqui? Fico muito agradecido aos que tiveram paciência de ler mais esta aborrecida "crónica" de um metaleiro (ou o que queiram chamar) terrivelmente "sonhador" mas que vive feliz com essa sua realidade muitas vezes paralela! Só desejo que comunguem por muitos anos desta paixão - ou estilo de vida, para ser mais preciso - que é o metal e o rock e que consigam transmitir às gerações vindouras todos os seus encantos. Crença e atitude meus amigos! Nunca desistam daquilo em que acreditam!

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DIFUSORES #2 (Guilhermino Martins - Trás-os-Montes)

Mensagem por Admin em 8/12/2013, 14:37



BI

Nome: Guilhermino Martins
Data de nascimento: 28.10.1977
Reside em: Santa Marta de Penaguião
Profissão: Produtor / Professor de Música
No aço desde: 1991
Bandas e/ou projectos, editoras, distribuidoras e/ou outros presentes: Blind & Lost Studios ( https://www.facebook.com/BlindandLostStudios ) , Serrabulho ( https://www.facebook.com/serrabulhogrind ), VilaMetal ( http://vilaMetal.blogspot.pt )
Bandas e/ou projectos, editoras, distribuidoras e/ou outros passados: ThanatoSchizO ( http://www.thanatoschizo.com/ )


IM: Antes de mais, obrigado por aceitares responder a esta entrevista. Começo com uma pergunta de algibeira: Como entraste para o mundo do Metal?
GM: Eu é que agradeço o interesse! Vivendo numa zona rural e pertencendo à primeira geração que se tornou fã desta sonoridade – não haviam irmãos, primos ou amigos mais velhos a ouvir esta música -, a minha entrada neste mundo deu-se relativamente tarde, em 1991. A razão? O auto-intitulado álbum de Metallica que, por ter furado no mainstream, deu a conhecer a banda em canais até aí quase exclusivos da música pop.

IM: Como descreves a tua situação local ou zona onde te inseres no que diz respeito a bandas e projectos de peso?
GM: Durante mais de uma década, entre o final dos anos 90 e os primeiros anos deste século, existiam poucos grupos. Lembro-me que os ThanatoSchizO foram, por vários anos, a única banda de Metal activa nesta zona. Antes disso, existiram os Hüska Burra Mamô e pouco mais, no que concerne a música original. A partir de meados da primeira década do novo milénio, aí sim, houve um crescimento exponencial no que diz respeito a bandas de Metal.
Actualmente, há alguns grupos bastante activos (Spectral Flood, Venial Sin, Serrabulho, Sollust, Origins ou PadariaGang) e, como administrador do blog VilaMetal, apraz-me registar o progressivo incremento anual de posts, relativos a concertos e actividades similares nesta zona do país.

IM: Quais as principais dificuldades que essas bandas/projectos mais encontram e que ideias sugeres para que ultrapassem essas mesmas dificuldades?
GM: Não que considere isso um verdadeiro problema, mas muitas vezes as bandas sucumbem quando alguns dos seus elementos ingressam no ensino superior, em zonas demasiado afastadas de Trás-os-Montes. Depois, mais do que qualquer impedimento físico ou mesmo financeiro, acho que o maior problema reside na mentalidade vigente. Há imensas bandas que se formam, mas rapidamente terminam, quando os seus elementos se apercebem que tocar música neste género, nesta zona e neste país não é um mar de rosas. E nem toda a gente está disposta a fazer sacrifícios para conseguir estabelecer uma carreira minimamente sólida.
A melhor forma de combater as vicissitudes que se vão apresentando ao longo do caminho reside na união. Durante anos ficava chocado com a falta de adesão aos concertos nesta zona. Uma mentalidade que partia, em primeira instância, das próprias bandas locais, cujos elementos se recusavam a assistir a outros concertos. Ao longo do tempo, porém, operou-se uma mudança de mentalidade de músicos e adeptos desta sonoridade, ao ponto de (finalmente) ser quase unânime essa “necessidade” de ir a concertos, como forma de protelar a ocorrência de mais eventos, no futuro.
A esse respeito, creio que o Espaço VilaMetal, através da divulgação e organização de eventos, como que agitou as àguas, envolvendo as pessoas e fazendo-as sentir que existe uma cena Transmontana.

IM: Que orgãos de divulgação, associações, espaços para tocar ou outros existem na tua zona "metálica" e, na tua opinião, qual o seu impacto/contributo para o meio?
GM: O interesse destas salas – das poucas que existem, aliás – foi sempre meramente sazonal. Ao longo dos anos houve alguns espaços: o Bar Académico, o Marc-Burger, a Associação ABC da Cultura – em Vila Real), o Face Bar (Chaves),  o Festival Liperske ( http:///festivalliperske.tk ) em Santa Marta de Penaguião, o Underfest (primeiro em Vilar de Maçada e, mais recentemente, em Vila Real) ou o Festival Peso na Régua. Ultimamente, as salas mais activas são as da Associação do Bairro de Santa Maria (em Vila Real), os Teatros de Vila Real e Lamego – com programações que, pontualmente, incluem bandas de Metal, o Zigurfest (também em Lamego) e as ocasionais escolhas de grupos de peso para os cartazes da Semana Académica e do Caloiro da UTAD.
É claro que a ocorrência de concertos gera sempre um impacto na cena local: os miúdos (ou pelo menos aqueles que já perceberam que há vida para lá dos grandes festivais, no que diz respeito a música ao vivo) sentem-se picados para formar as suas próprias bandas; os grupos sentem um impulso dinâmico que os motiva a ensaiar e a criar cada vez mais e melhor e, claro, os concertos assumem o papel de ponto de encontro de várias gerações adeptas desta sonoridade.

IM: Que diferenças poderias estabelecer entre outros tempos (80's e 90's) e os dias de hoje no que diz respeito à qualidade das bandas, oportunidades para tocar, divulgação do seu som, etc?
GM: A capacidade técnica dos grupos é exponencialmente maior, na actualidade. As oportunidades para tocar – nomeadamente fora desta região – são bem mais vastas (e Espanha está aqui tão perto…; para além de que, no passado, algumas bandas locais já desmistificaram um certo estigma  - que existia, de facto -  em relação à qualidade da música feita nesta região) e a internet permite a divulgação contínua das actividades (concertos, lançamentos, etc) dos grupos, de forma imediata. Por outro lado, o caminho para atingir algum reconhecimento parece-me mais longo. Talvez por existirem tantas bandas. Talvez porque, cada vez mais, seja difícil distinguir o trigo do joio, face ao carácter não filtrado da informação que nos chega no dia-a-dia.

IM: Em termos de divulgação do Metal por cá, aos dias de hoje, o que pensas da actual situação, desde os meios televisivos à internet passando por publicações em papel, fóruns, etc? O Metal é bem divulgado em Portugal? Se não, o que precisamos de melhorar?
GM: Posso estar enganado, mas tenho ideia que em termos televisivos a divulgação é perto de nula. Em relação a programas de rádio, revistas e fanzines creio que as coisas estão a fluir a um bom ritmo.
É claro que será sempre possível melhorar, mas não me parece que existam meios para, na actualidade, isso ser feito, nomeadamente aparecerem programas em canais generalistas que mostrem o melhor que se faz neste país – em todo o país! -, dentro desta sonoridade.

IM: Na tua perspectiva, que conselho darias a novas bandas ou mesmo a bandas que já cá estão no aspecto de como devem encarar o meio musical, fazer a sua divulgação, aspirações, público, comportamento perante os media, etc? No fundo, quais as linhas mestras com que se devem orientar?
GM: Não se deve desistir à primeira - nem à décima - adversidade. Mantenham-se unidos e, se se sentirem injustiçados com a aparente falta de interesse ou divulgação, criem a vossa cena, juntem-se a outras bandas amigas, arregacem as mangas e acreditem sempre que podem deixar a vossa marca. Ensaiar muito é importante numa primeira fase da carreira e preparem-se para muitos sacrifícios. Mas o resultado de tanto esforço é sempre meritório.

IM: Podes contar uma história (sem divulgar nomes) do melhor que passaste relacionado com o meio metálico e uma outra (também sem divulgar nomes) onde se mostrou o pior e o que não deve acontecer?
GM: Uma das coisas mais espantosas foi ter conhecido várias pessoas cuja existência enriqueceu o meu caminho. Hoje em dia posso viajar pelo país – e não só – e encontrar amigos nos seus quatro cantos.

Por outro lado, um dos aspectos mais negativos foi a desilusão de termos – enquanto ThanatoSchizO - feito a primeira parte de uma banda internacional que tínhamos, já há vários anos, em boa conta (éramos adeptos confessos) e cuja experiência se revelou simplemente decepcionante. A banda estrangeira em causa estava a sofrer convulsões internas – ao ponto do baterista ter abandonado o barco uns meses depois – e foi pouco simpática e arrogante, ao ponto de, por exemplo, uns dias antes, terem pressionado o promotor a cancelar a actuação dos grupos de suporte. Toda a situação foi, numa palavra, má.

IM: Que acontecimento destacarias (mais antigo ou recente) que mudou algo no meio metálico e que mais como esse deveriam acontecer para fortalecer ainda mais o nosso meio?
GM: Em anos mais recentes, o que me parece que realmente mudou para melhor foi o mais facilitado acesso das bandas a meios de (boa) gravação. Hoje em dia é possível gravar um álbum em Portugal que não fica nada a dever às mais fortes produções internacionais e isso contribui para elevar a fasquia qualitativa das bandas Portuguesas, fazendo-as competir com a já de si difícil (dada o nosso papel de pais periférico, na Europa) concorrência internacional.

IM: O que achas que poderia ser feito que ainda não foi de forma a fortalecer o crescimento e expansão da cena metálica nacional?
GM: Passar a existir um real roteiro nacional de clubes/bares/teatros onde as bandas Portuguesas de Metal se pudessem apresentar de forma sistemática. Isso proporcionaria um incremento de qualidade e dinamizaria a cena nacional para um patamar nunca antes visto. Penso, aliás, que esta sempre foi a grande lacuna do Metal nacional.

IM: Obrigado pelo teu testemunho e paciência e agradeço que deixes uma última mensagem para o pessoal que vai ler as tuas palavras!
GM: Agradeço o potencial interesse em lerem o meu ponto de vista sobre tudo isto e faço votos para que nos encontremos por aí, para conversarmos e trocarmos pontos de vista sobre a forma como sentimos este mundo tão único.
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Re: DIFUSORES #7 (Dico - Loures)

Mensagem por Jafar71 em 10/12/2013, 01:40

Obrigado pela lição.
Felicito o IM por esta excelente iniciativa.
Abraço

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Re: DIFUSORES #7 (Dico - Loures)

Mensagem por Santyago em 10/12/2013, 18:22

As duas entrevistas foram bastante boas, bastante elucidativas sobre a cena nas regiões de cada entrevistado, suas aventuras e seus pensamentos de como melhorar a cena em si, tanto regional como nacional. Parabéns pela iniciativa!

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DIFUSORES #3 (Sérgio Mendes - Ribatejo)

Mensagem por Admin em 23/12/2013, 22:15



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Nome: Sérgio Miguel Amorim Mendes (Bogart)
Data de nascimento: 30.10.1973
Reside em: Santarém
Profissão: Agricultor e Jornalista
No aço desde: Early 80’s
Bandas e/ou projectos, editoras, distribuidoras e/ou outros presentes: Fogo no Gelo (Metal Radio Show)
Bandas e/ou projectos, editoras, distribuidoras e/ou outros passados: Megasin (Banda), Mafetasy (Banda), Fogo no Gelo (Metal Radio Show)


IM: Antes de mais, obrigado por aceitares responder a esta entrevista. Começo com uma pergunta de algibeira: Como entraste para o mundo do metal?
R: Tudo começou no final dos anos 70 com alguns discos do meu pai, a partir daí o som eterno foi-se entranhando cada vez mais, apanhava todos os discos e K7´s que podia bem como revistas e 'zines, até que em conjunto com outros amigos formámos os Megasin, em 89. Depois tive uma pequena passagem pelos Mafetasy no início dos anos 90, seguindo-se o programa de rádio Fogo no Gelo com o Jorge Apolinário no qual continuo activo até hoje.

IM: Como descreves a tua situação local ou zona onde te inseres no que diz respeito a bandas e projectos de peso?
R: É uma pergunta curiosa. Apesar de ao longo dos tempos os grandes centros – pelas razões óbvias – serem a principal referencia do meio, o Ribatejo continua bem activo em termos de Metal, apesar de todas as limitações existentes. Basta, por exemplo, repararem na quantidade de bandas de onde sou (Almeirim) que surgiram no Metal Nacional nos últimos 20 anos. Quanto a rádio, que é o meio em que estou inserido, existem vários programas locais no distrito de Santarém que julgo ajudam a manter o movimento vivo.

IM: Quais as principais dificuldades que essas bandas/projectos mais encontram e que ideias sugeres para que ultrapassem essas mesmas dificuldades?
R: As principais dificuldades julgo terem a ver com a estrutura própria de um país pequeno como o nosso a juntar a algumas mentalidades pouco objectivas... A única sugestão que posso dar é a mudança de mentalidade porque o país vai continuar a ser “pequeno” na sua grandeza...

IM: Que orgãos de divulgação, associações, espaços para tocar ou outros existem na tua zona "metálica" e, na tua opinião, qual o seu impacto/contributo para o meio?
R: Os programas de rádio têm o seu papel na divulgação bem como algumas 'zines em papel,  mas nos dias que correm a Internet é a ferramenta máxima. Practicamente aniquilou todos os “concorrentes” de outros tempos. Quanto aos espaços para tocar já existiram bem mais...

IM: Que diferenças poderias estabelecer entre outros tempos (80's e 90's) e os dias de hoje no que diz respeito à qualidade das bandas, oportunidades para tocar, divulgação do seu som, etc?
R: Julgo que os músicos de hoje em dia provavelmente têm maior qualidade que os dessas décadas, acima de tudo, pelo conjunto de ofertas em todos os níveis que existem de há uns anos para cá mas quanto às bandas, a minha opinião é mais a oposta... Na minha humilde opinião, o som na altura soava-me mais verdadeiro. As oportunidades para tocar são bem mais e a divulgação com a web também.

IM: Em termos de divulgação do metal por cá, aos dias de hoje, o que pensas da actual situação, desde os meios televisivos à internet passando por publicações em papel, fóruns, etc? O metal é bem divulgado em Portugal? Se não, o que precisamos de melhorar?
R: De forma geral, julgo que a divulgação é bem feita em especial com a excelente ferramenta que a Internet se tornou. O que precisamos de melhorar? Talvez algumas mentalidades...

IM: Na tua perspectiva, que conselho darias a novas bandas ou mesmo a bandas que já cá estão no aspecto de como devem encarar o meio musical, fazer a sua divulgação, aspirações, público, comportamento perante os media, etc? No fundo, quais as linhas mestras com que se devem orientar?
R: Serem eles proprios e tocarem o som que gostam. Quando as coisas são verdadeiras tudo faz sentido.

IM: Podes contar uma história (sem divulgar nomes) do melhor que passaste relacionado com o meio metálico e uma outra (também sem divulgar nomes) onde se mostrou o pior e o que não deve acontecer?
R: Esta é difícil... Tenho muitas boas... Algumas com estrelas do meio mas vou escolher a simplicidade da camaradagem e união que existia na minha região e que nos fazia muitas vezes fazer Km's a pé no Inverno para ver um concerto. O pior? A arrogância que uma vez senti na pele de uma suposta “estrela” da nossa praça.

IM: Que acontecimento destacarias (mais antigo ou recente) que mudou algo no meio metálico e que mais como esse deveriam acontecer para fortalecer ainda mais o nosso meio?
R: O “Lança Chamas” do António Sérgio. Na minha opinião, esse foi o “acontecimento” que permitiu, na altura, toda a gente ter acesso ao som eterno pelo país fora. A partir daí o Metal ficou mais forte no nosso país.

IM: O que achas que poderia ser feito que ainda não foi de forma a fortalecer o crescimento e expansão da cena metálica nacional?
R: Não sei se existe uma resposta objectiva para essa questão... Talvez uma fórmula mágica que ponha tudo a funcionar...

IM: Obrigado pelo teu testemunho e paciência e agradeço que deixes uma última mensagem para o pessoal que vai ler as tuas palavras!
R: Continuem fiéis ao som eterno, acreditem e apoiem o Metal seja ele num “arranha-céus” ou numa “cave”! \m/_\m/

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DIFUSORES #4 (Álvaro Fernandes - Porto)

Mensagem por Admin em 17/1/2014, 03:00



BI

Nome: Álvaro Fernandes
Data de nascimento: 09.06.1975
Reside em: Porto
Profissão: Vendedor
No aço desde: 1987
Bandas e/ou projectos, editoras, distribuidoras e/ou outros presentes: Pitch Black / Dementia 13
Bandas e/ou projectos, editoras, distribuidoras e/ou outros passados: Threat


IM: Antes de mais, obrigado por aceitares responder a esta entrevista. Começo com uma pergunta de algibeira: Como entraste para o mundo do metal?
R: Andava na escola (no ciclo preparatório) e um dia a seguir às aulas fui com um colega da minha turma a casa dele porque queria mostrar-me uns discos que o irmão tinha. Saí de lá com a minha primeira cassete de Metal gravada com uns temas de Iron Maiden, Judas Priest, AC/DC, King Diamond e a "Do You Feel Like We Do" do Peter Frampton do álbum "Comes Alive" que ocupava o lado A quase todo da cassete. Ainda hoje a tenho!

IM: Como descreves a tua situação local ou zona onde te inseres no que diz respeito a bandas e projectos de peso?
R: O Porto sempre foi prolífero em termos de bandas. No passado deixou grandes marcas no Underground nacional com trabalhos (demo-tapes e álbuns) de bandas como Genocide, Web, Dove, Gangrena, Creedless Minds, Goblin, W.C. Noise, etc... Neste momento continua a ser uma cidade com bastantes bandas mas hoje em dia aparecem e acabam mais depressa do que antes. Há mais músicos, sem dúvida, mas tenho a ideia de que as pessoas já não são tão persistentes como antes. Desistem mais facilmente...

IM: Quais as principais dificuldades que essas bandas/projectos mais encontram e que ideias sugeres para que ultrapassem essas mesmas dificuldades?
R: As principais dificuldades partem sempre do foro interno das próprias bandas mas isso é um problema geral do país e não tanto do Porto. Tem-se que trabalhar imenso quando se quer fazer algo mais sério. Passar horas e horas num PC, ensaiar, responder a e-mails, criar uma base de fans, arranjar concertos, coordenar as vidas profissionais/familiares de 5 pessoas, etc... E depois é ir para a estrada e mostrar o que se vale! No entanto, tudo isso exige imensos sacrifícios, temos de fazer escolhas na vida frequentemente e muitos músicos não têm a banda como prioridade ou simplesmente acham que basta fazer-se boa música e esperar que os frutos caiam da árvore. Mas por muito boa que seja a nossa música, se ninguém a conhecer estamos apenas a fazê-la para nós e para quem quer dar concertos e recuperar o dinheiro que investiu no seu trabalho, o percurso tem sempre de ser longo e penoso. Faz-se com gosto mas não é nada fácil. Esse é maior obstáculo de qualquer banda. Hoje em dia existe tanta oferta e tanta concorrência que se não trabalharmos árduamente para chegar ao maior número de pessoas possível, nunca sairemos do mesmo lugar. Normalmente um local de ensaios é a maior dificuldade de cada banda mas, felizmente, no Porto temos o Centro Comercial STOP onde 98% das lojas são salas de ensaios e isso é excelente para qualquer músico!

IM: Que orgãos de divulgação, associações, espaços para tocar ou outros existem na tua zona "metálica" e, na tua opinião, qual o seu impacto/contributo para o meio?
R: Apenas o Metalpoint, o Hard Club e o Spot. São os únicos sítios no Porto onde bandas de Metal podem tocar regularmente. Ainda há uns meses aindei a tentar marcar um concerto para Dementia 13 num bar qualquer no centro do Porto onde não fosse habitual fazerem concertos de Metal. Todos com quem tentei negociar e contactar já tinham organizado esporadicamente eventos com bandas de Metal no passado mas todas as tentativas foram em vão. Nunca cheguei a ouvir um NÃO sequer. Ou não respondiam, ou encaminhavam-me para outra pessoa, ou marcava reunião e não apareciam, enfim... uma bela prova do grau de profissionalismo do trabalho de muita gente no nosso país e da dificuldade que uma banda de Metal tem em fazer o que quer que seja. Mas depois não há dinheiro, não há emprego, é tudo uma grande crise...

IM: Que diferenças poderias estabelecer entre outros tempos (80's e 90's) e os dias de hoje no que diz respeito à qualidade das bandas, oportunidades para tocar, divulgação do seu som, etc?
R: Hoje a maior dificuldade (e maior diferença) é que temos a internet e isso pode ser uma faca de dois gumes. E passo a explicar: as ferramentas são tantas que é impossível captar a atenção de toda a gente. Por outro lado, somos bombardeados com informação em excesso e nem sempre se consegue estar atento ao que se passa. Antes, todos líamos as mesmas fanzines, as mesmas revistas e ouvíamos os mesmos programas de rádio. Agora é mais complicado dar a conhecer a música de uma banda e conquistar um lugar de destaque, embora essas ferramentas sejam de fácil acesso. Por outro lado, hoje temos mais bandas de qualidade superior, com sucesso fora de portas e com um grande futuro pela frente, enquanto que antes, musical e tecnicamente, não eramos assim tão bons. Basicamente, nos anos 80/90 havia mais quantidade e menos qualidade. Agora há ainda mais quantidade e mais qualidade. É estranho mas é a realidade. A verdade é que também temos casos de bandas que atingiram um nível de qualidade na sua época que, até hoje, ainda não foi igualado.

IM: Em termos de divulgação do metal por cá, aos dias de hoje, o que pensas da actual situação, desde os meios televisivos à internet passando por publicações em papel, fóruns, etc? O metal é bem divulgado em Portugal? Se não, o que precisamos de melhorar?
R: Eu sou da opinião que o Metal é bem divulgado em Portugal, sem dúvida. O que há a melhorar são as mentalidades. Hoje há tantas bandas e tantos músicos que acaba por haver uma divisão enorme e isso é prejudicial. Por vezes acaba por andar meio mundo a tentar ser melhor que outro meio mundo. Os próprios elementos das bandas não vão a concertos de outras bandas e saem de casa só para ir ver uma banda internacional e quando o rei faz anos! Depois também há muita gente mais preocupada com o quintal do vizinho do que propriamente com o seu. Antes tinhas um público nos conceros constituído por fãs, hoje é constituído por músicos. Devia haver mais união mas não há. Para além de que há muita gente que tem banda mas não vai nem gosta de ir ver um concerto sequer. Isso é algo que eu não consigo entender. Eu, pessoalmente, não conseguiria viver sem música mas há músicos que gostam mais de futebol e há coisas que nunca vão mudar.

IM: Na tua perspectiva, que conselho darias a novas bandas ou mesmo a bandas que já cá estão no aspecto de como devem encarar o meio musical, fazer a sua divulgação, aspirações, público, comportamento perante os media, etc? No fundo, quais as linhas mestras com que se devem orientar?
R: Basicamente têm de ser honestos não só consigo próprios mas com o público também. E quando isso não acontece, grande parte do mesmo facilmente percebe isso. Depois, é conveniente as bandas tentarem ter uma sonoridade homogénea e não divagar por géneros distintos só porque os músicos ouvem um pouco de tudo. E para o fazer têm de ser muito bons compositores de forma a que nada pareça deslocado. Normalmente, estes são os erros mais frequentes que vejo em bandas com menos experiência. De uma maneira geral (e isto já serve tanto para bandas novas como quaisquer outras) devem encarar o meio musical como um enorme desafio. Temos de arriscar e trabalhar muito, evidenciar o nosso trabalho e garantir que ele chega ao maior número de pessoas possível. Para isso, temos de usar todas as ferramentas à nossa disposição na internet (e não só) e espalhar a nossa música por todo o lado. E, mais importante de tudo, cuidar da imagem da banda. Um trabalho desleixado e pouco organizado não vai captar a atenção de ninguém e ainda vai deixar as pessoas com uma má impressão nossa. O que acontece quando olhamos para a capa de um CD e achamos aquilo horrível? Vamos inevitavelmente pensar que a música não presta. Não é necessariamente verdade mas é essa a forma como o nosso cérbro funciona e a maneira como processa a informação. Se formos a um restaurante e a comida no prato tiver mau aspecto, vamos ficar com menos apetite, enquanto se for ao contrário, vamos logo salivar! Com a música é igual pois as pessoas comem com os olhos e todo o imaginário de uma banda deve ser cuidado. O essencial a reter aqui é que a primeira impressão é a mais importante. E, claro, devemos sempre tentar espalhar a nossa música por todo o lado. Isso implica menos saídas à noite e mais horas em frente a um PC. Só que há sempre bandas que acham que isso não é necessário e ficam sentadas à espera de resultados. Quando os mesmos não aparecem, chateiam-se com a vida. Mas a verdade é que é necessário meter mãos à obra e NUNCA DESISTIR.  

IM: Podes contar uma história (sem divulgar nomes) do melhor que passaste relacionado com o meio metálico e uma outra (também sem divulgar nomes) onde se mostrou o pior e o que não deve acontecer?
R: Por acaso nem me lembro assim de nada do outro mundo. Algo de positivo e que não me vou esquecer foi, por exemplo, Pitch Black e Web terem conseguido encher uma camioneta de pessoal para um concerto de ambas as bandas em Vigo e contribuindo para uns momentos e um dia muito bem passados! Foi algo que difícilmente conseguiremos repetir e deveria acontecer mais vezes. Íamos lá tocar, num evento organizado pelas duas bandas e decidimos promover uma excursão para irmos com pessoal que nos quisesse acompanhar. São momentos de união que  deixam sempre saudades. De uma forma mais negativa olha, lembro-me de uma vez há muitos anos que organizei um concerto e o baterista de uma banda ficou indignado por eu ser o organizador e não ter uma chave de fendas para ele arranjar o pedal da bateria. Ou então um concurso onde participei com Pitch Black (na altura Withering) em que fomos acusados pelo pseudo manager de uma banda Portuguesa (Fé Lusitana ou algo assim, não me lembro bem) de termos colado dois temas para que pudéssemos tocar mais tempo. Isto porque o tempo era limitado, tínhamos uma música de 9 mins (daí o nosso set ter sido composto por 3 temas apenas) e deveríamos ser desclassificados. Essa banda foi a vencedora do concurso mas nós sobrevivemos ao tempo, ainda cá estamos e eles desapareceram.

IM: Que acontecimento destacarias (mais antigo ou recente) que mudou algo no meio metálico e que mais como esse deveriam acontecer para fortalecer ainda mais o nosso meio?
R: Não estou a ver assim nada de muito concreto mas o aparecimento de diversos estúdios (bem como a própria evolução tecnológica) que permitiram a bandas nacionais lançarem e gravarem a sua música cada vez com mais qualidade, foram uma grande ajuda e um grande factor impulsionador de toda a cena Underground. Obviamente que as mentalidades por cá também poderiam mudar para melhor pois enquanto as pessoas preferirem ver um concerto por ano e sacar música da net sem comprarem um único CD, isto não vai evoluir muito mais... Mas isso já sou eu a ser utópico!

IM: O que achas que poderia ser feito que ainda não foi de forma a fortalecer o crescimento e expansão da cena metálica nacional?
R: Nada em particular para ser sincero. Temos programas de rádio, webzines, zines impressas, uma revista de Metal, revistas online, salas de concertos, editoras, estúdios de gravação, recursos e pessoas com talento nas mais diversas áreas artísticas (designers, produtores, promotores, web designers, realizadores, etc, etc) por isso só uma banda que não queira trabalhar é que não chega a lado nenhum. Felizmente, hoje em dia temos os meios e recursos por isso tudo depende de nós próprios. Isto de ter uma banda de Metal não é nada fácil mas se não trabalharmos, não atingimos os nossos objectivos! É necessário metermos mãos à obra, irmos para a estrada, fazermos amizades, suarmos e logo coisas boas vão acontecer... ficarmos a olhar para o tecto, enquanto achamos que a nossa música é a melhor do mundo não nos leva a lado nenhum. Temos de lutar pelo que acreditamos!!!

IM: Obrigado pelo teu testemunho e paciência e agradeço que deixes uma última mensagem para o pessoal que vai ler as tuas palavras!
R: Eu é que agradeço pelo convite e voto de confiança. Como tal, espero não ter dito nenhuma asneira! Para todos os que lerem esta entrevista, um obrigado pelo tempo, as minhas desculpas pela (possível) seca e um abraço a todos os que apoiam VERDADEIRAMENTE o Metal e a música. Vocês sabem quem são e nós também!

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DIFUSORES #5 (Fernando Reis - Grande Lisboa)

Mensagem por Admin em 16/2/2014, 14:23



FERNANDO REIS



BI

Nome: Fernando Reis
Data de nascimento: 31.08.1975
Reside em: Porto Salvo
Profissão: Jornalista musical
No aço desde: 1991
Bandas e/ou projectos, editoras, distribuidoras e/ou outros presentes: Misantropia Extrema webzine/TV
Bandas e/ou projectos, editoras, distribuidoras e/ou outros passados: Feedback Magazine, LOUD! Magazine, Major Label Industries, Misdeed Records, Riff Magazine, Tenser 'Zine, Metal Soup, Dirty Pair Affair Distro.


IM: Antes de mais, obrigado por aceitares responder a esta entrevista. Começo com uma pergunta de algibeira: Como entraste para o mundo do metal?
R: Comecei por ouvir hard rock/AOR como Bon Jovi, Firehouse, Bonfire e afins, fui “subindo” na escala do peso para Judas Priest, Ozzy Osbourne, Motörhead e escancarei as portas do mundo de todos os estilos de metal quando comecei a ouvir os programas de rádio Lança-Chamas e, mais tarde, Hipertensão.

IM: Como descreves a tua situação local ou zona onde te inseres no que diz respeito a bandas e projectos de peso?
R: Porto Salvo em particular e o concelho de Oeiras em geral não têm uma grande tradição neste género. Pelo menos não tanto quanto a Margem Sul, que é outra região periférica da Grande Lisboa. As escassas bandas que existem – os Grog já pertenceram a Oeiras, assim como o J.A. Dos Decayed, os Disaffected na primeira parte da sua carreira – não são tão “de Oeiras” como de gente que vive, ou viveu, em Oeiras. Há poucas salas de ensaios, nenhuns locais onde existam concertos habitualmente e a “cena” está toda em Lisboa, mesmo ao lado.

IM: Quais as principais dificuldades que essas bandas/projectos mais encontram e que ideias sugeres para que ultrapassem essas mesmas dificuldades?
R: Como foi referido anteriormente, Oeiras tem a vantagem de estar situada mesmo ao lado da capital. Mas também a desvantagem. Se todas as bandas com residentes nesta periferia têm acesso às salas de espectáculos, concertos, bares e toda a “cena” lisboeta, por outro lado isso esvazia uma suposta cena oeirense, que fica reduzida a cinco ou seis elementos de bandas que vivem aqui, depois mudam-se para o concelho de Sintra ou de Cascais e vice-versa. Não há cena em Oeiras, nem bandas nem projectos “de” Oeiras. É mais justo e correcto falar-se de uma Grande Lisboa que abarca tudo isto.

IM: Que orgãos de divulgação, associações, espaços para tocar ou outros existem na tua zona "metálica" e, na tua opinião, qual o seu impacto/contributo para o meio?
R: Esta questão também foi abordada anteriormente. Devido à ausência de “cena”, associações e espaços para tocar são inexistentes. Existe, isso sim, aquela boa vontade que todos conhecemos, em “trazer” algumas bandas para tocarem em locais mais perto de onde vivemos, que invariavelmente esbarram na ignorância, preconceito e/ou puro desinteresse de direcções de locais ou associações muitas vezes vazias de qualquer outra actividade lúdica ou musical.

IM: Que diferenças poderias estabelecer entre outros tempos (80's e 90's) e os dias de hoje no que diz respeito à qualidade das bandas, oportunidades para tocar, divulgação do seu som, etc?
R: A qualidade das bandas é sempre relativa, porque envolve a percepção pessoal de cada um e, em última análise, gostos individuais, que todos sabemos quão díspares podem ser. O que é inegável é a quantidade de bandas de qualidade que hoje em dia existe, quando comparadas com os anos 80 e 90. Porventura até demais, porque dispersa atenções e não permite que se aprecie condignamente cada uma delas, potenciando o “consumo” ao invés do verdadeiro culto. Essa é outra das principais diferenças entre a “apreciação” que se faz de uma banda actualmente e a que se fazia há 15 ou 20 anos. Em relação a oportunidades para tocar, elas existem, mas em alguns casos em condições absolutamente deploráveis para quem tem uma banda. Pagar para tocar sempre se pagou, mas uma coisa é pagar as despesas de um concerto que se dá quase de borla; outra – inteiramente diferente – é pagar as despesas do nosso bolso e ver os lucros, por parcos que sejam. irem de forma indivisível para os bolsos de outrém. No que diz respeito a divulgação, a situação é um pouco semelhante à da sobrepovoação de bandas... Existem muitos blogs, muitos meios, cada vez mais especializados – ou não – mas menos disponibilidade física para se seguirem todos, dispersando-se atenção por demasiados meios. Ainda assim, o “mercado” de comunicação é como é e resta-nos a nós, consumidores, procurar um “cabaz” de publicações que respondem de forma mais ou menos fiel ao que procuramos num blog ou numa revista.

IM: Em termos de divulgação do metal por cá, aos dias de hoje, o que pensas da actual situação, desde os meios televisivos à internet passando por publicações em papel, fóruns, etc? O metal é bem divulgado em Portugal? Se não, o que precisamos de melhorar?
R: Retirando a tal sobrevariedade que foquei na questão anterior, nota-se que há demasiadas publicações generalistas e poucas especializadas. De que adianta ter uma publicação a falar exactamente das mesmas coisas e bandas de todas as outras? Depois, devido às naturais escolhas editoriais, os projectos em foco serão sempre os mesmos, com os que ficam “de fora” a serem também quase sempre os mesmos. É claro que existem excepções – sendo a Metal Horde Zine uma das que se destaca – mas falta o tal espírito de militância e, porque não assumi-lo, o lado fanboy de muita gente para começar projectos mais especializados e/ou diferentes, que tragam algo de verdadeiramente novo ao panorama de divulgação em Portugal. Mas, no geral, o metal mais mainstream está bem divulgado pela tal panóplia de publicações que andam todas atrás do mesmo, sim. Eu sei, porque tenho uma. Mas estou sempre a pensar em recomeçar uma fanzine fotocopiada dedicada ao underground.

IM: Na tua perspectiva, que conselho darias a novas bandas ou mesmo a bandas que já cá estão no aspecto de como devem encarar o meio musical, fazer a sua divulgação, aspirações, público, comportamento perante os media, etc? No fundo, quais as linhas mestras com que se devem orientar?
R: Esta é uma questão tramada que, por si só, dava para um ensaio de 20 páginas. Acredito que, num meio pequeno como o português, a chave está na internacionalização e na auto-valorização. É claro que o talento ou se tem ou não se tem, mas uma banda com talento, estando confinada dentro das fronteiras nacionais, estará basicamente sempre a tocar para as mesmas pessoas para quem tocam as bandas sem tanto talento assim. A internacionalização não é fácil, cada vez mais custa dinheiro porque se trata de uma máquina de marketing e de um mercado estruturado, mas não há mesmo outro caminho. E, aí, é importante que um projecto tenha bem definido, a cada momento da sua existência, o seu objectivo. Se tem como objectivo encarar a música a sério, há que levar em conta que é preciso fazer uma série de sacrifícios – pessoais, financeiros, profissionais – e correr uma série de riscos, sendo a tal internacionalização uma premissa essencial, assim como dançar a “dança” do mercado mais profissional em que se transformou o metal. Se o objetivo passa pelo puro divertimento de compor e tocar música, de forma realista mas pouco ambiciosa, o mercado nacional chega para as encomendas e o percurso internacional pode ser feito numa banda mais DIY, através de uma rede de contactos que se forme lenta, mas metodicamente. No fundo, passa tudo por estabelecer objectivos, traçar um plano para alcançá-los e cumprir o plano passo a passo, sem desânimos nem deslumbramentos.

IM: Podes contar uma história (sem divulgar nomes) do melhor que passaste relacionado com o meio metálico e uma outra (também sem divulgar nomes) onde se mostrou o pior e o que não deve acontecer?
R: Quem está no meio metálico sabe que os valores como a amizade ou o companheirismo são mais do que meras palavras ocas. Quem conhece a sensação de estar entre metalheads a falar sobre bandas que só nós conhecemos, num sentimento misto de elitismo e seita secreta, sabe do que estou a falar. Permite também potenciar situações, como a que me aconteceu num concerto há alguns anos, em que encontrei dois amigos comuns que não via há alguns anos – e nem eles se viam há já bastante tempo. Entre actuações, no bar, a conversa “O que fazes?” chegou ao ponto em que um disse, meio a medo, que era vendedor de material para retrosarias, completo com a expressão “Goza lá”. Ao que o outro respondeu “A sério? Epá, o meu passatempo favorito é bordar!” e seguiu-se uma conversa sobre teares, linhas e técnicas que eu nunca pensei ouvir durante um linecheck dos Sacred Sin. O pior que vi da “cena” teve a ver com a minha saída de um dos locais em que trabalhei profissionalmente e tudo o que aconteceu nos meses que antecederam a saída, em que percebi que no metal as coisas podem ser perfeitamente iguais a outros “locais de trabalho”: pisa-se, atropelam-se valores e vale tudo para chegar “lá acima”.

IM: Que acontecimento destacarias (mais antigo ou recente) que mudou algo no meio metálico e que mais como esse deveriam acontecer para fortalecer ainda mais o nosso meio?
R: O grande acontecimento que mudou o meio metálico como um todo foi o aparecimento e a banalização da internet. Tornou tudo mais global, rápido e acessível, com as vantagens e desvantagens que isso implica. A geração que agora está a crescer nunca vai conhecer o prazer de esperar semanas para que um disco chegue e depois o gozo de tê-lo nas mãos, nunca vai conhecer o prazer de receber uma resposta de uma banda que admira por carta, escrita à mão, ali dentro da caixa do correio. Algo tangível, palpável, com cheiro, cores e a personalidade de um objecto. Felizmente, a nova geração também não saberá o que é esperar por uma resposta ou uma informação durante semanas – ou meses – nem terá de viver um “gheto” de informação, limitada à quantidade – parca – de dados a que tem acesso. Se e quando haverá outra revolução como esta, é impossível de prever. Talvez não no nosso tempo de vida.

IM: O que achas que poderia ser feito que ainda não foi de forma a fortalecer o crescimento e expansão da cena metálica nacional?
R: Uma associação sem fins lucrativos que edite, promova e faça um trabalho de fundo de divulgação das bandas e cena portuguesa lá fora. Algo que una gente de bandas, editoras e comunicação social com o fim de fazer lobby da cena nacional para territórios que pensam que é na Suécia e em França que estão, invariavelmente, as melhores bandas. Algo assim seria muito bom para o metal português.

IM: Obrigado pelo teu testemunho e paciência e agradeço que deixes uma última mensagem para o pessoal que vai ler as tuas palavras!
R: O metal continua a ser uma comunidade e, ao contrário do que alguns querem fazer crer, não é um “mercado de consumo” sujeito às mesmas “leis” dos outros géneros musicais. Aqui, dinheiro não compra fama (pelo menos a longo prazo), os “fenómenos” não são fabricáveis como numa linha de montagem e a imprensa não é opinionmaker; é uma mera percussora do que há lá fora. A nossa opinião somos nós que a fazemos e os nossos gostos não são manipuláveis. É isso que torna o metal – e a comunidade à sua volta – especial e único. Vamos mantê-lo assim.

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Re: DIFUSORES #7 (Dico - Loures)

Mensagem por Ze Purgatorio em 16/2/2014, 16:26

Quem compra discos vindos dos US, Canadá, Japão - continua hoje a esperar os mesmos 15 a 20 dias que esperava nos anos 80's. Nada mudou. È claro que nao falo dos discos que encontras facilmente na FNAC ou na Xaranga. Tudo tem a ver tambem com a velocidade com que o distribuidor ou label tem a enviar o material. Discos vindos da Europa é mais ou menos a mesma coisa de antes tambem. De 1 semana a 10 dias. E da maneira que os nossos correios andam a trabalhar agora a tendencia é esperar cada vez mais tempo...A net é boa essencialmente pq te permite ter mais certezas antecipadamente se o disco que vais comprar vai de encontro ás tuas expectativas. Pq existem clips no youtube, existem mp3 em bandcamp, myspace, reverbnation em blogs, foruns, etc. Antigamente guiavas-te por "instinto" se ainda ninguem que conheçesses tivesse esse disco. Era o que eu fazia. Lia 1 outra pequena review numa revista estrangeira e perçebia se a banda enquadrava no meu estilo de gostos e por vezes era seduzido pela capa ou por 1 foto da banda. Era assim que as coisas funçionavam. Mas ainda hoje conheço algum sangue novo no Metal que nao aceita o que se vende cá nas discotecas ou nos "sitios do costume" vindo das editoras/distros grandes e compra underground seja de que país for pq é com isso que se identifica.
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Re: DIFUSORES #7 (Dico - Loures)

Mensagem por FMR em 17/2/2014, 00:54

Sim, as coisas em correio continuam a demorar mais ou menos o mesmo tempo e a antecipação com que se espera o material continua. Todo o processo de encomenda antes, no entanto, é muito menos moroso e cheia das tais "certezas" que antes não existiam com a mesma facilidade.

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abraço de ferro

Mensagem por CAMERAMAN_METALICO em 17/2/2014, 14:11

Gostei da entrevista CM

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Re: DIFUSORES #7 (Dico - Loures)

Mensagem por FMR em 17/2/2014, 14:24

Grande abraço, Cameraman!

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Re: DIFUSORES #7 (Dico - Loures)

Mensagem por cyrcka em 22/2/2014, 17:05

Ze Purgatorio escreveu: Antigamente guiavas-te por "instinto" se ainda ninguem que conheçesses tivesse esse disco.


E assim é que era, por instinto! Mas comprava se 20 lps sem os ouvir sequer, e apenas 1 ou 2 desses 20 é que 1 gajo nao gramava, o resto era tudo bom. Agora nao é bem assim... pode se ouvir antecipadamente, o que é bom, mas é sem sal, sem sabor, algumas parecem um circo, qualidade deixa mt a desejar. E mesmo que nao se oiça antes, compra se 20 cds, e so umas 2/ 3 se aproveitam.

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Re: DIFUSORES #7 (Dico - Loures)

Mensagem por Agent em 22/2/2014, 18:29

Bastava ver que era da Roadrunner/Roadracer e já sabíamos que era de qualidade.
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DIFUSORES #6 (Vitor Paixão - Beja)

Mensagem por Admin em 6/4/2014, 18:51



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IM: Antes de mais, obrigado por aceitares responder a esta entrevista. Começo com uma pergunta de algibeira: Como entraste para o mundo do metal?
R: Ouvindo aleatoriamente aqui e acolá diversos discos e K7's através de amigos. Na altura tanto ouvia U2 e The Smiths como Iron Maiden e Metallica mas depressa escolhi de que lado queria estar, ou melhor dizendo, foi o metal quem me escolheu, quem me cativou, situação que veio a sedimentar-se com a audição do Lança-Chamas na altura, ida a concertos ao mítico Dramático de Cascais e começar a adquirir material, quer discos, quer K7's gravadas, etc...

IM: Como descreves a tua situação local ou zona onde te inseres no que diz respeito a bandas e projectos de peso?
R: Gostaria que estivesse melhor pois supostamente são 500 ou 600 a gostar de metal mas depois na hora da verdade, quando há um evento de metal em Beja ou nas proximidades, não aparecem mais do que 100 ou 150. Para além de que a maioria dos putos não conhece as bases, a verdadeira essência do metal, pois para eles as referências limitam-se a Slipknot, late Metallica, black metal moderno e metalcore em demasia! Quanto a bandas, há 2 ou 3 cujas sonoridades não trazem nada de novo (isto sem querer menosprezá-las ou deixar de lhes dar valor), com excepção de LVNAE LUMEN, uma banda que trouxe algo fresco à realidade alentejana mas que têm definitivamente (quanto a mim) que começar a fazer coisas novas e principalmente gravarem um registo, sob pena de serem apenas “mais uma”.

IM: Quais as principais dificuldades que essas bandas/projectos mais encontram e que ideias sugeres para que ultrapassem essas mesmas dificuldades?
R: Arranjarem gigs fora da região e terem possibilidades de gravar. Na parte que me toca e enquanto presidente da direcção de uma Associação (Culturmais) tentarei estabelecer protocolos com outras no sentido de levar bandas locais a outros festivais e gigs. Já temos um protocolo com a NAAM (SWR), a ver se para o ano vemos algum proveito em prol das bandas locais, de forma a que possam estar presentes, de quando em vez, nos seus eventos.

IM: Que orgãos de divulgação, associações, espaços para tocar ou outros existem na tua zona "metálica" e, na tua opinião, qual o seu impacto/contributo para o meio?
R: Em termos associativos não existem espaços. Temos a Casa da Cultura, que a Câmara nos disponibiliza a título gratuito e mais dois ou três locais (bares) onde organizamos os nossos eventos de metal, em parceria com os respectivos proprietários. Em boa verdade aqui por Beja não existe tradição metálica, nem mesmo a malta mais oldschool se junta para celebrar o metal e recordar outros tempos, está tudo disperso, aliado ao facto das duas estações radiofónicas existentes também não se interessarem na divulgação do som eterno. Mas poderia começar por aí, ou seja, arranjar uma horinha semanal, numa rádio para divulgar o que de bom se fez e o que de bom se continua a fazer! Olha, boa ideia, vou tentar!!!

IM: Que diferenças poderias estabelecer entre outros tempos (80's e 90's) e os dias de hoje no que diz respeito à qualidade das bandas, oportunidades para tocar, divulgação do seu som, etc?
R: Quanto à qualidade das bandas julgo não haver comparação! Não poucas vezes tenho esta discussão com o meu filho que me diz que parei nos 80! Em parte é verdade mas para mim foram os anos dourados do metal em geral (Speed/Thrash/Death/Crust/Crossover/Black Metal, etc...)! Não que na actualidade não existam boas bandas, bons projectos mas a verdade é que naquela altura tinhas 30 bandas e todas elas eram boas, agora para teres uma boa precisas de ouvir 30! Talvez tenha também a ver com a divulgação massiva que agora se faz e antes não se fazia, sei lá, mas a verdade é que gostando de algumas coisas que vão aparecendo poucas me cativam. Mas também te digo que para ouvir as chamadas “novas sonoridades” de bandas actuais prefiro ouvir bandas actuais com som dos 80, entendes-me? Sabem que estão a imitar mas sabem-no conscientemente e isso não sendo bom também não é assim tão mau pois à falta de capacidade para criarem algo novo preferem assentar em algo que lhes diz muito. E às vezes fazem-no por opção, o que também respeito! Já quanto aos anos 90, tirando meia dúzia de pontos altos, quase que assistimos ao definhar do metal mais tradicional (incluindo o speed/thrash e death metal) por causa do grunge e do nu-metal, sem esquecer porém a segunda vaga do black metal que foi das poucas coisas boas (e nem sempre) que nos trouxeram os 90. Finalmente, também aprecio as bandas que fizeram uma evolução consistente e coerente, bandas que talvez gostando menos mantenho o mesmo respeito por elas, reconhecendo-lhes qualidade mesmo que praticando um som diferente, que às vezes nem metal se pode considerar (Paradise Lost, Amorphis, Anathema...), enquanto outras, de tão depressa que quiseram variar acabaram por se perder e cair no esquecimento e no universo de sonoridades que hoje tens, ou seja, bandas outrora gloriosas (pelo menos para mim), que quanto a mim se mataram às suas próprias mãos (Pyogenesis é para mim o melhor exemplo). Quanto a lugares para tocar julgo que, não obstante na minha região ainda não sejam os suficientes, que melhorou substancialmente, pois agora tens concertos e festivais a toda a hora, em diversos locais e antes tomara apanhares um concertozito maior no Dramático de Cascais ou no José de Alvalade e pouco mais, tirando o Johnny Guitar e o Rock Rendez Vous, pouco mais havia. O mesmo acontece com a divulgação, pois onde antes tinhas a Metal Hammer e um ou dois programas de rádio agora então a cena vulgarizou-se, pena que os mais importantes se traduzam num círculo hermeticamente fechado onde apenas cabem os amigos dos amigos e pouco mais. Entende isto como crítica mas é o que sinto, revistas e radialistas com responsabilidades neste país, que supostamente defendem o metal em geral e o underground em particular, em boa verdade não o apoiam (pelo menos como deveriam), não abrem as portas aos que dia a dia labutam para fazer algo em prol do metal. Não que eles não o façam, mas fazem-no apenas para alguns quando na verdade poderiam (e deveriam) fazer muito mais!

IM: Em termos de divulgação do metal por cá, aos dias de hoje, o que pensas da actual situação, desde os meios televisivos à internet passando por publicações em papel, fóruns, etc? O metal é bem divulgado em Portugal? Se não, o que precisamos de melhorar?
R: Em parte já te respondi acima, creio que existem pessoas e revistas com responsabilidade neste país, que foram (e são para alguns) um marco na história do metal em Portugal mas que se esqueceram das origens, cujo funcionamento privilegia outros interesses que nãos os da pura divulgação do underground nacional. Atenção, com isto não digo que não façam falta nem que não desempenham um papel importante e meritório, mas caramba, será que no meio de tanta página, no meio de tanto programa não se arranja um pequeno espaço para “os outros”? Como tal, continuam a ser as fanzines, a net, através dos fóruns e programas e revistas online que nos faz manter viva a esperança, principalmente daqueles que ainda sentem o metal como antigamente ou que pelo menos respeitam o trabalho dos outros, quer bandas, quer promotores, quer metaleiros.

IM: Na tua perspectiva, que conselho darias a novas bandas ou mesmo a bandas que já cá estão no aspecto de como devem encarar o meio musical, fazer a sua divulgação, aspirações, público, comportamento perante os media, etc? No fundo, quais as linhas mestras com que se devem orientar?
R: É pá, quem sou eu para dar conselhos? Acima de tudo divirtam-se e vivam como se fosse o último dia das vossas vidas pois o metal é diferente e assim tem de continuar, somos únicos, somos uma família e temos que nos ajudar uns aos outros. Só Deus sabe o que me custa não poder promover mais bandas através do festival que organizo mas sinto que estou a fazer a minha quota-parte, talvez não tanto como muitas bandas desejariam ou mereciam, mas caramba, vou e chego onde posso e não engano ninguém, isso jamais! E depois humildade, muita humildade, o que não significa que quando sobem a um palco não tenham legitimidade para se sentirem os maiores pois esse é o vosso sonho, mas depois é “descer à terra”, interagir com a malta, partilhar experiências. O metal, o underground em particular é isto, e no dia em que esta irmandade se acabar, deixar de fazer sentido, então meu amigo, garanto-te que o metal, tal como ele era e sempre foi, morreu! Porque metal não é apenas música, metal é uma forma de estar, uma forma de sentir que tem a sua grande base efectivamente na música, mas que  vai muito para além da música, é sentimento, emoção, é vida, sei lá, é difícil explicar pois não me imagino sem ele! E tu, imaginas?

IM: Podes contar uma história (sem divulgar nomes) do melhor que passaste relacionado com o meio metálico e uma outra (também sem divulgar nomes) onde se mostrou o pior e o que não deve acontecer?
R: Melhor foi no ano passado, onde no final da actuação dos DOOM, de lágrimas nos olhos e ao aperceber-me o que tinha feito em prol da minha terra e dos meus irmãos metaleiros não só locais como de todos os cantos do país, cheguei-me à beira do palco, abri os braços, fechei os olhos e deixei-me cair para o público! Naquele momento, naquela altura senti que o meu trabalho pelo metal tinha dado os seus frutos e ainda hoje penso: não é todos os dias que se traz uma banda como DOOM a Beja, no meio do nada, e com ele mais de duas dezenas de outras grandes bandas do panorama undergrond nacional. Quanto ao pior é a inveja e a falta de ética que infelizmente alguns sentem e têm, onde num meio tão difícil ainda há meia dúzia de cromos que não só não agradecem como dizem mal e só não te estragam a vida se não puderem!

IM: Que acontecimento destacarias (mais antigo ou recente) que mudou algo no meio metálico e que mais como esse deveriam acontecer para fortalecer ainda mais o nosso meio?
R: O Santa Maria Summer Fest, sem dúvida! Se bem que também te digo que cada vez temos menos espaço para tantos festivais e concertos por isso o futuro passa por ou apostar em grandes bandas e ai poderes praticar preços elevados e ainda assim teres público ou então bandas mais underground com bilhetes a preços bastante convidativos como é o caso do SMSF, caso contrário morres pois cada vez mais é difícil manter um festival se não deres passos bem firmes e curtos já que a oferta atingiu o seu auge e sinto que já é muito superior à procura!

IM: O que achas que poderia ser feito que ainda não foi de forma a fortalecer o crescimento e expansão da cena metálica nacional?
R: Tem que começar a haver uma maior articulação e entendimento entre promotores por forma a que haja espaço para todos no timing adequado sob pena de teres eventos com 2.000 pessoas e outros onde nem 200 estão, traduzindo-se na “lei do mais forte”, e antes que essa lei comece a aniquilar alguns festivais deveríamos pelo menos fazer um esforço no sentido de articular as coisas, melhorá-las.

IM: Obrigado pelo teu testemunho e paciência e agradeço que deixes uma última mensagem para o pessoal que vai ler as tuas palavras!
R: Eu é que agradeço! A todos quantos estão no metal há pouco tempo, escutem os mais velhos, respeitem a essência, aprendam com eles tal como nós também podemos aprender convosco (foi o que aconteceu comigo e com o meu puto). Ao pessoal oldschool, aceitem os putos, se os verem a moshar num concerto de Iron Maiden não os afastem, ensinem-nos, não defendam a sua exclusão pois o futuro do metal está neles, como tal temos que lhes passar as tradições e por forma a preservar o que é bom mas isso só se consegue com um intercâmbio e partilha entre gerações! United We (must) Stand!!!

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DIFUSORES #7 (Dico - Loures)

Mensagem por Admin em 31/5/2014, 19:23



DICO



BI

Nome: Dico
Data de nascimento: 01.08.1970
Reside em: Loures
Profissão: Jornalista/Profissional Independente
No aço desde: 1982
Bandas e/ou projectos, editoras, distribuidoras e/ou outros presentes: Colaboração na Versus Magazine. Novos projetos em preparação mas ainda no segredo dos deuses...
Bandas e/ou projectos, editoras, distribuidoras e/ou outros passados: Bandas – Paranóia, Dinosaur, Sacred Sin, Powersource, Timeless, projeto a solo. Jornalismo: Breve História do Metal Português (livro), Metal Incandescente, A a Z do Metal Português, Musicalis, Reflexões Musicais, Memórias Musicais (blogues) e Music Interview (e-newsletter). Colaboração nas revistas Riff e Blast! e nos sites 123Som.com e MetalOpenMind.


IM: Antes de mais, obrigado por aceitares responder a esta entrevista. Começo com uma pergunta de algibeira: Como entraste para o mundo do metal?
R: O primeiro tema de música pesada que tenho memória de ouvir foi «Bohemian Rhapsody», dos Queen. Estávamos em 1977. No entanto, seria apenas em 1982, quando o meu irmão levou para casa o então recém-editado «The Number of the Beast», dos Iron Maiden, que se deu a minha grande mudança em termos musicais. Desde esse momento, o Metal, na suas diversas vertentes, tornou-se para mim uma forma de vida. Tenho sempre marcado presença no Underground, quer através do meu percurso em bandas (no final dos anos 80 e princípio dos 90), quer através do jornalismo e da divulgação musicais.

IM: Como descreves a tua situação local ou zona onde te inseres no que diz respeito a bandas e projectos de peso?
R: Para mim só faz sentido ver o cenário Underground nacional como um todo uno e indivisível. O todo é maior do que a simples soma das suas partes. Não é possível ter uma visão global (e muito menos sendo ela correta e representativa) meramente por meio das partes que o integram individualmente. É óbvio que as cenas locais e regionais apresentam uma influência determinante no Underground metálico a nível do país, havendo mesmo áreas geográficas de enorme influência, mas é o todo que vale por si. Nesta medida, para ser sincero, não conheço particularmente o atual cenário Underground de Loures (até porque não resido há muitos anos nesta zona), por oposição ao dos anos 80 e 90, durante os quais surgiram inúmeras bandas, algumas delas marcantes, como Lakrau, Massive Roar, 605 Forte, Dinosaur ou Merciless Death, entre outras. Já na viragem do século apareceram nomes como Arte Sacra ou Blackfeather, por exemplo. De lembrar que foi no concelho de Loures que se realizou, a 15 de dezembro de 1984, o primeiro festival de Heavy Metal alguma vez organizado em Portugal, o I (e único) Festival de Heavy Metal de Stº António dos Cavaleiros. A importância e a carga simbólica deste evento para o Underground nacional falam por si. Foi também aqui (concretamente em Moscavide) que, na segunda metade dos anos 60,  se formou a banda que, no livro Breve História do Metal Português, identifiquei como sendo a primeira de orientação mais pesada a surgir em Portugal – os The Playboys, que tocavam um Rock Psicadélico pesado na linha dos grandes nomes estrangeiros da época. De resto, atualmente existem numerosos grupos no concelho, alguns usufruindo de alguma exposição mediática, mas sinceramente conheço muito melhor o cenário metaleiro da Margem Sul, por exemplo, do que o de Loures. No que se refere a estúdios e salas de ensaio temos em Loures os míticos JAP, por exemplo, embora a oferta seja restrita. Os espetáculos de bandas nacionais apresentam alguma regularidade mas as salas escasseiam. Por outro lado, no concelho operam ainda editoras/distros como a Blood & Iron Records ou, se não estou em erro, a Guardians of Metal.

IM: Quais as principais dificuldades que essas bandas/projectos mais encontram e que ideias sugeres para que ultrapassem essas mesmas dificuldades?
R: Em geral, as dificuldades não diferem substancialmente daquelas que sentem a generalidade dos grupos oriundos das restantes zonas do país: verbas limitadas para aquisição de equipamento, dificuldade na conjugação de horários entre os elementos das bandas para ensaios, gravações e concertos; importantes obstáculos na distribuição física dos seus registos e na assinatura de contratos de edição e/ou licenciamento; dificuldade em encontrar salas para tocar regularmente, entre outros. Julgo que existe um fator comum à maioria dos problemas que enunciei: a escassez de verbas, transversal aos diversos atores envolvidos, e que se traduz num conjunto de situações interdependentes, numa lógica de causa/efeito. Se não tens capital para investir na abertura de uma sala de espetáculos as bandas dão poucos concertos. Logo, gozam de menor exposição mediática e conquistam menos público, o que resulta numa verba limitada para fins promocionais, gravações, aquisição de equipamento, encomenda de merchandise, etc. É uma bola de neve. Uma maior capacidade financeira traduzir-se-ia certamente numa evolução significativa, até porque os grupos nacionais caracterizam-se essencialmente por uma enorme vontade, talento e capacidade de realização. Fazem as coisas acontecer (nomeadamente organizando festivais), desde que possuam as condições mínimas para tal. As atuais ferramentas de promoção e divulgação, além de estarem ao alcance de todos, são, na grande maioria, de utilização gratuita, rápida e intuitiva, pelo que desempenham um papel determinante na construção da carreira de qualquer grupo. O maior problema, julgo, será mesmo a diminuta capacidade económica.

IM: Que orgãos de divulgação, associações, espaços para tocar ou outros existem na tua zona "metálica" e, na tua opinião, qual o seu impacto/contributo para o meio?
R: Como disse, não conheço particularmente a cena de Loures, em especial em termos de órgãos underground. Quanto a salas, o Excalibar, localizado na Póvoa de Stª Iria, tem tido um importante papel na divulgação de bandas nacionais. Julgo que ainda se encontra a laborar, mas não estou certo. O Heritage Live Act Café também veio enriquecer um pouco o cenário para atuações ao vivo. Por vezes, algumas associações recreativas também acolhem espetáculos. O impacto destes espaços não é negligenciável, muito pelo contrário, embora pudesse ser exponenciado caso houvesse mais agentes underground.

IM: Que diferenças poderias estabelecer entre outros tempos (80's e 90's) e os dias de hoje no que diz respeito à qualidade das bandas, oportunidades para tocar, divulgação do seu som, etc?
R: Atualmente as bandas possuem um domínio técnico incomparavelmente superior às das épocas referidas. Também ao nível da composição, da gravação, produção, mistura e mesmo dos espetáculos ao vivo a qualidade aumentou de uma forma que não poderíamos supor há 20 anos. Hoje, temos inúmeros grupos de qualidade igual ou superior à de grandes nomes estrangeiros. As oportunidades para tocar são agora em maior número do que nos anos 80 e 90, mas continua a não haver propriamente um circuito, embora grupos como os Ramp, Switchtense ou Sacred Sin, entre outros, já hajam provado ser possível realizar, hoje, digressões nacionais (nos anos 90 Procyon ou Afterdeath já o haviam feito, embora com menos condições). Nem sempre é fácil encontrar boas salas, e muitas bandas pagam literalmente para tocar, o que configura um cenário muito pior do que nas décadas anteriores.

IM: Em termos de divulgação do metal por cá, aos dias de hoje, o que pensas da actual situação, desde os meios televisivos à internet passando por publicações em papel, fóruns, etc? O metal é bem divulgado em Portugal? Se não, o que precisamos de melhorar?
R: Uma coisa é certa: nunca houve tantas e tão eficazes plataformas de divulgação como hoje. A democratização e massificação tecnológicas, especialmente no que respeita à internet, permitiu o surgimento de uma panóplia de meios, como as redes sociais, os blogues, as mailing-lists, as e-newsletters, os sites, os podcasts, os fóruns, absolutamente determinantes na divulgação do Underground em geral, o que se traduziu num conhecimento muito maior do Underground nacional. Pena que numerosos títulos alojados nestes meios hajam desaparecido nos últimos anos. Por outro lado, na TV assistimos a um tímido aumento da divulgação, nomeadamente em talkshows de canais de cabo, com entrevistas a bandas e atuações ao vivo. A exposição mediática dos Moonspell e em particular de Fernando Ribeiro também conferiu ao Metal um facelift em termos de imagem na opinião pública nacional. Hoje até já vemos passar em rodapé nos telejornais notícias sobre atuações de bandas de Metal no nosso país. Quem imaginaria tal coisa há dois anos? Obviamente que ainda há muito a melhorar, mas hoje o cenário é indiscutivelmente melhor. Quanto a publicações, continuo a dizer que em Portugal existe mercado para uma segunda revista especializada. Em geral, o que precisamos de melhorar é, essencialmente, a diversidade de oferta, quer seja de bandas transversais aos diversos subgéneros, quer em termos de oferta de conteúdos informativos. Requerem-se abordagens e conteúdos inovadores, que vão para além do óbvio e façam a diferença. Faltam ainda meios para que o Metal português se internacionalize de facto, com as nossas bandas a circular em digressões pelo mundo fora. Editoras e promotores estrangeiros, por favor olhem para Portugal.

IM: Na tua perspectiva, que conselho darias a novas bandas ou mesmo a bandas que já cá estão no aspecto de como devem encarar o meio musical, fazer a sua divulgação, aspirações, público, comportamento perante os media, etc? No fundo, quais as linhas mestras com que se devem orientar?
R: Cada vez mais, e dada a atual conjuntura, o ideal é as bandas tomarem em mãos as suas próprias carreiras. Se, numa banda, a distribuição de tarefas for adequada segundo as competências e conhecimentos de cada membro tudo se simplifica. Basta cada pessoa saber o que tem de fazer em prol do coletivo. Fundamental é também desenvolver novos conhecimentos, nomeadamente através da frequência de cursos de formação, wokshops, etc. Por outro lado, as ferramentas e plataformas tecnológicas exercem hoje um papel absolutamente vital para a divulgação do trabalho de qualquer agente Underground, pelo que a presença nas redes sociais e plataformas análogas se revela obrigatória, em paralelo com os meios tradicionais. Fazer o melhor possível em cada momento, trabalhar arduamente, tocar muito ao vivo, fazer um trabalho contínuo de promoção/divulgação (tendo sempre em conta que os conteúdos têm de ser relevantes e de qualidade), gravar com frequência, disponibilizar os registos nos diversos formatos e manter uma relação próxima com os fãs e com os media são os segredos do sucesso de qualquer banda.

IM: Podes contar uma história (sem divulgar nomes) do melhor que passaste relacionado com o meio metálico e uma outra (também sem divulgar nomes) onde se mostrou o pior e o que não deve acontecer?
R: Há inúmeras histórias sobre o melhor que vivi no meio metálico. Muitas delas passam pelo reconhecimento do meu trabalho no Underground ao longo dos anos, outras dizem respeito à total dedicação de terceiros em prol do Underground nacional. Há incontáveis e inspiradoras histórias de verdadeiros sacrifícios pessoais feitos em prol do Underground. Conheço muitos bem de perto. Quanto ao pior, verificaram-se algumas situações tristes em que fui envolvido mas que já fazem parte do passado. Não vale a pena falar delas. Mas hoje, no geral, o ambiente que envolve a música pesada lusa está substancialmente mais degradado do que há uma década, revelando a podridão que envolve o meio. O espírito de irmandade tem-se perdido. Por vezes, imperam a inveja, o egocentrismo e o insulto gratuito. É estranho verificar que, em muitos casos, estes comportamentos são manifestados entre a velha guarda - em teoria mais unida do que as novas gerações.  Por vezes, algumas pessoas com um passado na construção do Underground nacional gostariam que algo tivesse sido diferente, pelo que tentam pintar um outro quadro, mas tal não faz sentido. Assim, prefiro recordar meramente os aspetos positivos.

IM: Que acontecimento destacarias (mais antigo ou recente) que mudou algo no meio metálico e que mais como esse deveriam acontecer para fortalecer ainda mais o nosso meio?
R: Os exemplos são inúmeros, mas opto por referir a realização do I Festival de Heavy Metal de Santo António dos cavaleiros (1984), a publicação da rubrica “Blitz Metálico” no jornal Blitz (mais tarde substituída pelo “Arame Farpado”), o surgimento das zines e do tape-trading, as emissões do Rock em Stock e do Lança-chamas, o surgimento das rádios pirata (que, além destes programas, impulsionou imenso a divulgação do Metal no éter), a criação das revistas Rock Power (1991), Riff (1998) e Loud! (1999), o aparecimento de festivais como o Hardmetal Fest ou o SWR, o lançamento de Wolfheart com a consequente internacionalização dos Moonspell, o surgimento das plataformas tecnológicas baseadas na Internet e as eliminatórias do Wacken Open Air Metal Battle Portugal. Por fim, não sei se o meu livro Breve História do Metal Português mudou algo no meio metálico luso, mas gosto de acreditar que pelo menos o abanou um pouco, abrindo perspetivas e indicando caminhos (apesar de tudo óbvios) por desbravar. Foi algo original, nunca antes feito por cá.

IM: O que achas que poderia ser feito que ainda não foi de forma a fortalecer o crescimento e expansão da cena metálica nacional?
R: Falta mais união entre os vários agentes, de forma a criar mais e melhores projetos, de preferência com abordagens mais ambiciosas e originais. O nosso meio carece do surgimento de mais estruturas profissionais que possibilitem, por exemplo, a edição/licenciamento de mais discos nacionais no estrangeiro, com a consequente incursão de mais bandas lusas em digressões além-fronteiras. É fundamental criar “pacotes” atrativos para o público, editoras e promotoras de outros países, que anseiam conhecer as grandes bandas que surgem em terras de Viriato.

IM: Obrigado pelo teu testemunho e paciência e agradeço que deixes uma última mensagem para o pessoal que vai ler as tuas palavras!
R: Pensem no que podem fazer, individual e coletivamente, para divulgar o Underground nacional. E façam-no! Façam-no com empenho e paixão. Criem novos projetos, façam a diferença, esforcem-se por ser originais. O aço forjado em Portugal precisa de vocês.

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